06 | 10 | 26

Desde 17 de março de 2026, crianças e adolescentes de até 16 anos só podem ter conta em rede social se ela estiver vinculada à conta de um responsável. Essa é a regra central do ECA Digital, a Lei 15.211/2025. Dessa forma, a lei devolve às famílias uma supervisão que, na prática, já não estava com ninguém.

Por isso, na See-Saw, preferimos tratar o assunto a partir de dados.

Durante as aulas de orientação, o G9 elaborou duas pesquisas para avaliar o uso de telas. Os alunos do G5 ao G12 responderam à primeira. Uma versão adaptada da pesquisa foi encaminhada às famílias dos mesmos segmentos.

Este texto reúne, portanto, dados do levantamento, feito na escola e com as famílias. Além disso, aproveitamos para informar sobre o que a lei passou a exigir e os combinados que funcionam no dia a dia.

Quais são os principais achados do levantamento feito com os alunos

A idade mínima não funciona

65% admitem ter mentido a idade, e outros 20% “não lembram”, o que em pesquisa costuma esconder um sim. Como 40% dos respondentes com idade informada têm 12 anos ou menos, e Instagram e TikTok são os mais usados (57% e 51%), há quase certeza de contas abertas antes dos 13 anos. O cruzamento por idade confirmaria isso. A See-Saw não destoa do país: segundo a TIC Kids Online 2025, 85% dos usuários de 9 a 17 anos têm perfil em pelo menos uma plataforma, com 64% na faixa de 9 a 10 anos e 79% na de 11 a 12. Isso muda a natureza do problema: a escola está diante de uma norma social, e uma família sozinha dificilmente resiste a ela.

Percepção de Uso

45% usam celular 3 horas ou mais por dia (49% entre os que têm celular), e 36% somam outras 3 horas ou mais em tablet ou computador. Mesmo assim, só 31% consideram o próprio uso exagerado. Como a escala infla os números menores e o autorrelato reduz os maiores, o tempo real fica indefinido. A lacuna, contudo, é consistente.

Regras em casa

67% dizem haver uma regra clara em casa, e 6% desconhecem se há, o que na prática equivale a não haver. Esses números convivem com 65% de idade falsificada e 45% acima de 3 horas. A explicação mais provável é que as regras tratam do momento do uso (“sem celular na mesa”), e não do acesso ou da idade. A pergunta não distingue os dois casos, e essa é a próxima coisa a medir.

Vida Social

 41% já deixaram família ou amigos para ficar nas redes, 4% com frequência. Esse é o indicador mais próximo de dano concreto na pesquisa.

Letramento Digital

  • Cerca de 60% reconhecem, total ou parcialmente, que o algoritmo influencia seus gostos.
  • Cerca de 70% rejeitam compartilhar notícia falsa. Esse é o ponto mais forte.
  • Cerca de um quarto concorda que curtidas não afetam a mente, e outro quarto fica neutro. Essa é a maior lacuna, embora o item seja o menos confiável.

Conversa em Família

Cerca de dois terços dizem que os pais estão dispostos a conversar sobre o que acessam. Esse é o ativo da escola: as famílias ainda são interlocutoras e precisam de critério, não de convencimento.

Os jogos

56% citam jogos como Roblox, e 8 alunos usam Discord. Para os menores, o risco em jogos está nos chats e no contato com desconhecidos, mais do que no tempo de uso.

O que a escuta das famílias revelou

Trinta famílias responderam à primeira etapa da pesquisa Telas e Escolhas. Entre os resultados, três números se destacam:

  • 93% dos filhos têm celular próprio.
  • 61% têm conta em pelo menos uma rede social, sobretudo Instagram e TikTok.
  • 57% dos pais, por outro lado, consideram excessivo o próprio tempo de tela.

O terceiro número pesa tanto quanto os dois primeiros. Afinal, os pais reconhecem que também têm dificuldade de largar o celular. Isso torna a conversa com os filhos mais honesta, porque ninguém está cobrando do adolescente uma disciplina que os adultos já dominam.

Outro dado, no entanto, pede atenção. Todas as famílias que responderam discordam de que um menor altere a data de nascimento para entrar numa rede social. Ao mesmo tempo, Instagram e TikTok exigem idade mínima de 13 anos. Entre o princípio e a prática há, portanto, uma distância que merece exame, e o ECA Digital torna esse exame inevitável.

Ainda assim, são resultados de uma primeira etapa, com uma amostra pequena. Ou seja, servem para orientar as próximas perguntas, não para tirar conclusões sobre toda a escola.

ECA Digital: o que muda para crianças e adolescentes

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente foi sancionado em setembro de 2025 e, depois de seis meses, entrou em vigor em 17 de março de 2026. Em resumo, as principais regras são estas:

  • Conta vinculada: quem tem até 16 anos só pode ter rede social se a conta estiver vinculada à de um responsável legal. Assim, o adulto pode acompanhar o tempo de uso, bloquear conteúdos e autorizar compras.
  • Idade verificada: clicar em “tenho mais de 18 anos” deixa de bastar. Em vez disso, as plataformas precisam verificar a idade com mecanismos confiáveis, que ainda serão definidos em regulamentação.
  • Privacidade máxima por padrão: contas de menores já nascem com as configurações de proteção no nível mais alto.
  • Fim das caixas de recompensa: a lei também busca banir as loot boxes, itens aleatórios comprados com dinheiro real dentro de jogos.
  • Remoção em até 24 horas: conteúdos de violência, cyberbullying ou incentivo à automutilação devem sair do ar em até 24 horas.
  • Fiscalização: a ANPD acompanha o cumprimento da lei. Além disso, as multas podem chegar a 10% do faturamento do grupo econômico.

O ECA Digital, contudo, impõe obrigações às plataformas, e o vínculo só protege se um adulto o configurar e acompanhar. Em outras palavras, a ferramenta existe, mas cabe à família usá-la. Para um resumo dos pontos principais, veja esta matéria da Agência Brasil.

Regras de uso de telas em casa: cinco combinados que funcionam

Regras genéricas costumam durar uma semana. Por outro lado, as que resistem são poucas, concretas e valem também para os adultos.

  1. O celular dorme fora do quarto. A noite é o horário de maior uso escondido e o que mais prejudica o sono. Por isso, um carregador na sala já resolve boa parte do problema.
  2. A conta já começa vinculada. Essa é a exigência central do ECA Digital, e Instagram e TikTok, por exemplo, já têm ferramentas próprias de supervisão: a Central da Família e a Sincronização Familiar. Configure-as junto com seu filho e, ao mesmo tempo, explique o que você vai ver e o que não vai.
  3. No cadastro vai a idade real. Se a idade mínima da rede ainda não chegou, a resposta é esperar. Mentir no cadastro, além disso, ensina que as regras são negociáveis e tira do adolescente as proteções que o ECA Digital garante para a idade dele.
  4. Refeição sem tela, para todos. Isso porque o combinado só tem autoridade quando o adulto também deixa o celular de lado.
  5. Pergunte pelo conteúdo, não só pelo tempo. “O que você viu hoje que achou estranho?” rende mais do que “quanto tempo você ficou no celular?”. Em suma, quem sabe o que o filho consome consegue orientá-lo.

Mesmo assim, há um obstáculo que nenhuma família vence sozinha: “todo mundo da sala já tem”. Quando 93% das crianças têm celular, a pressão vem do grupo; portanto, a resposta precisa vir do grupo também.

Compartilhe nas redes

Deixe seu comentário

18 + 11 =